Conta de luz alta tem um suspeito que dá para identificar em casa: um aparelho de muita potência ligado por mais tempo do que você imagina, um aparelho velho gastando além da conta ou uma fuga de corrente na instalação. O jeito de separar os três é ler o relógio com a casa desligada e depois fazer a conta aparelho por aparelho.

Primeiro, olhe os kWh e não o valor em reais

A fatura mostra dois números que as pessoas misturam: o consumo, em quilowatt-hora (kWh), e o valor, em reais. O valor é o consumo multiplicado pela tarifa, mais impostos e a bandeira do mês. Se o consumo ficou parecido com o de meses anteriores e o valor subiu, o motivo é a tarifa, e nenhum aparelho da casa tem culpa.

Compare os kWh dos últimos meses. Se eles subiram, procure o que mudou: visita em casa, época de calor com ar-condicionado ligado mais horas, banho mais longo no inverno, aparelho novo, freezer comprado, bomba d'água trabalhando mais.

Teste do relógio com tudo desligado

Esse teste mostra se existe consumo escondido. Ele não exige abrir nada: você só desliga aparelhos, mexe nos disjuntores do quadro e observa o medidor.

  1. Escolha um horário em que ninguém esteja usando energia e feche a casa com os aparelhos que ficam em ligação direta (portão eletrônico, bomba, ar-condicionado) fora de funcionamento.
  2. Apague todas as lâmpadas e tire da tomada o que der: televisão, carregadores, micro-ondas, computador, roteador (se puder ficar sem internet por alguns minutos).
  3. Desligue a geladeira e o freezer da tomada só durante o teste e volte a ligá-los logo depois. Com eles ligados o medidor anda, porque o compressor entra e sai de funcionamento.
  4. Vá até o medidor. Se for de disco, olhe se o disco gira; se for digital, observe a luz ou o indicador de consumo por alguns minutos.
  5. Medidor parado, ou com um movimento muito lento, indica que a casa não está perdendo energia. Disco girando de forma contínua, ou luz do medidor piscando com frequência, indica consumo com tudo desligado.

O medidor digital varia por modelo: alguns têm uma luz que pisca em ritmo proporcional ao consumo, outros mostram o valor no visor. Se não souber qual é o seu, a distribuidora explica pelo atendimento.

Se o relógio anda, descubra qual circuito é

Com o medidor andando, abaixe um disjuntor de cada vez no quadro de distribuição, esperando alguns instantes entre um e outro. Quando o disco parar ou a luz do medidor deixar de piscar, o circuito responsável é o que você acabou de desligar. Deixe-o desligado e anote o que ele alimenta.

Esse é o limite do teste caseiro. Quem acha o ponto exato da fuga, que pode ser um fio com isolamento ruim, uma tomada úmida ou uma emenda embutida, é o eletricista, com instrumentos e com a instalação aberta. Não tente abrir caixas nem mexer em fios para procurar. Enquanto isso, deixe o circuito desligado.

Tabela de consumo por aparelho

A conta é simples: potência em watts, dividida por 1.000, vezes as horas de uso no dia, vezes 30 dias. O resultado é o consumo em kWh no mês. A potência está na etiqueta do aparelho. A coluna em reais usa uma tarifa de exemplo de R$ 1,00 por kWh só para facilitar a conta; troque pelo valor que aparece na sua fatura.

Aparelho Potência típica Uso de exemplo kWh por mês Reais por mês (tarifa de exemplo)
Chuveiro elétrico (inverno) 5.500 W 40 min por dia cerca de 110 cerca de R$ 110
Chuveiro elétrico (verão, posição morna) 3.500 W 40 min por dia cerca de 70 cerca de R$ 70
Ar-condicionado 9.000 BTU (modelo comum) 900 a 1.000 W 8 h por dia cerca de 220 a 240 cerca de R$ 220 a R$ 240
Geladeira frost free consumo médio varia por modelo 24 h, com compressor intermitente de 40 a 70, aproximadamente de R$ 40 a R$ 70
Micro-ondas 1.200 a 1.500 W 20 min por dia cerca de 12 a 15 cerca de R$ 12 a R$ 15
Ferro de passar 1.000 a 1.500 W 1 h por dia cerca de 30 a 45 cerca de R$ 30 a R$ 45
Lâmpada de LED de 9 W 9 W 5 h por dia cerca de 1,4 cerca de R$ 1,40
Televisão de LED de 43 polegadas 70 a 100 W 5 h por dia cerca de 10 a 15 cerca de R$ 10 a R$ 15

Os números são estimativas para uma conta rápida. A etiqueta de eficiência energética do seu aparelho dá o valor mais próximo da realidade. O que a tabela mostra é a ordem de grandeza: chuveiro, ar-condicionado e ferro pesam muito mais do que dezenas de lâmpadas de LED.

Suspeitos comuns além da fuga

Se o teste do relógio deu parado, a conta alta tem outra origem. Outros candidatos:

  • Chuveiro esquentando mal. Quando a água sai menos quente, muita gente compensa deixando a chave na posição mais quente e demorando mais no banho, e é o tempo de banho que pesa na conta. A troca da resistência exige desligar o disjuntor do chuveiro e é serviço de eletricista ou de técnico habilitado.
  • Geladeira com a borracha da porta ruim. Um teste visual: feche a porta sobre uma folha de papel e puxe. Se a folha sai sem resistência em algum ponto, a vedação está falhando. O compressor passa a funcionar por mais tempo. A borracha é peça de reposição simples, mas não tente consertar parte elétrica.
  • Ar-condicionado sujo ou subdimensionado. Filtro entupido e aparelho pequeno para o cômodo fazem o compressor trabalhar quase sem parar. Limpe apenas o filtro, que é externo, seguindo o manual.
  • Equipamento em espera. Televisão, decodificador, console, carregador e fonte de roteador consomem pouco cada um, mas ficam ligados o mês inteiro.
  • Bomba d'água ou portão eletrônico com defeito que trabalha sem parar, o que o teste do relógio costuma revelar quando você mantém esses itens desligados.
  • Hábito. Mais gente em casa, mais horas de ar-condicionado e mais banhos quentes mudam o consumo sem que nenhum aparelho esteja com problema.

Quando chamar um eletricista

Chame o profissional nestes casos:

  • o disco ou o contador do relógio anda com tudo desligado e o consumo continua mesmo depois que você tirou os aparelhos da tomada;
  • ao abaixar um disjuntor o medidor para, mas você não sabe o que está ligado naquele circuito ou nada que faça sentido está nele;
  • o quadro ou alguma tomada está quente, tem cheiro de queimado ou o disjuntor desarma sem motivo;
  • você tem fio exposto, emenda aparente ou instalação muito antiga.

Na visita, descreva o que o teste mostrou: qual disjuntor fez o medidor parar e em que momento do dia isso acontece. Peça ao eletricista que meça a fuga do circuito e explique onde está o defeito. A fuga costuma estar em um trecho embutido, e o conserto pode exigir abrir um pedaço de parede, por isso o orçamento deve dizer se o acabamento está incluído.

Resolvida a fuga, repita o teste do relógio. Se o medidor ficou parado, você tem a prova de que o circuito foi consertado, e a fatura do mês seguinte deve refletir isso em kWh.